Carteira em pele "Birkin", da Hermès

Carteira em pele "Birkin", da Hermès

Na Casa Hermès, a transmissão de valores é uma questão de fidelidade – a uma família e a um espírito de empreendimento. A marca que começou por fabricar selas e arreios, quando os cavalos trotavam ainda nos Boulevards de Paris, tornou-se hoje uma presença incontornável no mundo do alto luxo. Foram seis gerações a trabalhar, a inventar, tecendo laços criativos com mulheres e homens de talento. Recentemente, a Hermès foi mais longe. Deu um passo desses que marcam a evolução de uma história – e criou a Fundação Hermès. A Máxima esteve em Paris e entrevistou Catherine Tsekenis, a cabeça pensante por trás de um projecto audacioso.

O intuito é simples: dar novas dimensões a uma política de apoios. Mas como é frequente, as ideias mais simples são por vezes as mais arrojadas. Pense-se na primeira carteira “para automóvel”, criada por Emile Hermès em 1923 para a sua mulher Julie Hermès. Foi a primeira carteira integralmente em couro, a primeira a ter um fecho éclair, a primeira com um aspecto masculino, bem adaptada à mulher dos anos 20. O desenho impecável foi a iluminação de um  espírito singular. Ainda hoje é um sucesso da marca e chama-se agora Bolide. A Fundação Hermès pretende ser isto: o fruto de uma boa ideia que perdura no tempo.

Num fim de tarde, na sede da Casa Hermès, a alguns passos apenas da famosa loja do 24, Faubourg Saint-Honoré, marcámos encontro com a directora da Fundação, Catherine Tsekenis. No terceiro andar de um prédio moderno, rodeiam-nos todos os objectos que fazem da Hermès um mito: botas de couro ladeiam o famoso carré de seda, numa prateleira, cadernos de couro, numa outra mesa, a última colecção de serviço de chá, ao fundo vemos uma bicicleta Hermès. O tom está dado: a exigência Hermès é fruto de uma tradição à qual se alia a inovação.

O desafio

Como se concebe uma nova faceta do mundo Hermès? “As acções de mecenato da nossa Casa têm já uma certa tradição – mas foram sempre envoltas de uma relativa discrição”, explica-nos Catherine Tsekenis. “Quando a nova direcção artística chegou à Hermès – os primos Pierre-Alexis Dumas e Pascale Mussard – decidiu desde logo desenvolver esta vertente. Ambos convivem de perto com inúmeros artistas, estão envolvidos em várias associações e têm uma consciência social importante.” A Hermès estava madura para um tal projecto? “Sim, pronta para ir mais longe e sobretudo pronta para começar a divulgar este tipo de iniciativa.” Foi aí que Catherine Tsekenis chegou, com a função de desenvolver o mecenato. A Fundação tornou-se o instrumento mais adequado e mais prático para o fazer: concebendo uma política global, o mecenato torna-se mais visível. “Além disso”, explica Catherine Tsekenis, “penso que para o público e para os nossos clientes, é importante fazer claramente a distinção entre tudo o que é comercial, e uma Fundação, que é um organismo sem fins lucrativos, desconectado da actividade comercial.”

Uma identidade

“Quando cheguei à Hermès”, conta-nos Catherine Tsekenis, “fiz um estágio num atelier de marroquinaria – faz parte da nossa formação. A pessoa que se ocupou de mim, o pai dessa pessoa, o seu irmão e a sua tia: todos são ou foram marroquineiros na Hermès. Esta questão da transmissão de um saber manual é muito importante para nós. O apoio ao artesanato permite a transmissão de conhecimentos.”

Partindo desta reflexão, a Fundação concebeu quatro eixos de acção: dois na área cultural e dois na área da solidariedade. “Trabalhamos em torno dos valores e da identidade da Casa Hermès. De um ponto de vista cultural, queremos fomentar um diálogo entre um saber tradicional e o apoio à criação contemporânea.” A marca Hermès é um exemplo vivo desta dialéctica tradição/modernidade: ainda hoje se serve do famoso point sellier – um ponto feito à mão, com um fio de linho passado por cera de abelha, e executado com duas agulhas. E ao mesmo tempo que este gesto secular é executado nos ateliers, Jean-Paul Gaultier dá provas de uma inventividade sóbria nos desfiles Hermès.

No que diz respeito à solidariedade, “queremos promover o acesso à educação e nomeadamente à aprendizagem de ofícios tradicionais”. O intuito é apoiar instituições que permitam a crianças e adultos acederem à autonomia através de uma carreira profissional. E, por fim, “apoiar programas de pesquisa ambiental, contribuindo assim para a preservação do planeta”.

A Festa da Cor

Quando se fala de transmissão de saberes, as crianças são as primeiras visadas. Para celebrar o vigésimo aniversário da Convenção Internacional dos Direitos das Crianças, a Fundação Hermès organizou em Paris a primeira Festa da Cor (lafetedelacouler-leblog.com). Paris animou-se de fitas coloridas, houve maquilhagem distribuída com o jornal, uma festa foi organizada no Jardim das Tulherias. A celebração permitiu angariar fundos para ajudar as crianças desfavorecidas do Senegal. Em colaboração com a UNICEF, este programa visou melhorar as condições escolares na cidade de Kolda, na região de Casamança. A Festa da Cor alastrou-se à França inteira e sensibilizou o maior número de pessoas para a questão dos Direitos das Crianças. “A questão da esperança é fundamental”, explica-nos Catherine Tsekenis. “É preciso agir e manter uma vontade firme para que a situação evolua. Trata-se de preparar o futuro. Este elã levou-nos inevitavelmente ao encontro das crianças. Queremos ajudar as que não vivem nas mesmas condições privilegiadas que nós.” A Casa Hermès, de resto, mantém um laço forte com a infância, algo de um pouco vitoriano, à maneira de Lewis Carroll: arvora uma certa fascinação pelo imaginário infantil do final do século XIX, brinca com o seu logótipo, tem uma auto-ironia muito vincada, uma vertente humorística. “Sem dúvida, é algo que nos sensibiliza muito. No que toca à Fundação, esse lado permite-nos abordar temas graves, com uma certa distância: vamos tentar ajudar a resolver algumas questões, permanecendo humildes – e guardando o sorriso.”

A longo prazo, qual seria a maior ambição da Festa da Cor? “Queremos ajudar os organismos competentes a comunicar com os Governos dos países onde há ainda graves problemas ao nível dos direitos das crianças, de forma a militarem em favor da alteração dos regulamentos e das legislações. Só com acções federadoras é que isso é possível.”

Inesperada Binoche

O primeiro projecto artístico apoiado pela Fundação Hermès foi o espectáculo In-I. Trata-se de um espectáculo de dança onde a actriz oscarizada Juliette Binoche dança com o coreógrafo de renome internacional Akram Khan ­– coreógrafo que dirigiu igualmente a criação deste espectáculo. Durante o ano de 2009, In-I partiu em tournée pelo mundo inteiro e passou por cidades como Montreal, Abu Dhabi ou Tóquio.

Uma actriz que se aventura no mundo fechado da dança não será bem recebida em toda a parte. Se em Paris a sua audácia foi saudada pela crítica, tal não foi o caso em Londres. A Fundação como laboratório de experimentação? “Sem dúvida!”, responde, entusiasta, Catherine Tsekenis. “A nossa Fundação pretende apoiar projectos, o que significa sempre, até certo ponto, um salto no desconhecido. Quando dissemos ‘sim’ a Akram Khan e a Juliette Binoche, tínhamos visto um ensaio apenas.” Como vê o facto que In-I não tenha sido aplaudido em Londres? “Isso faz apenas com que tenhamos ainda mais vontade de o defender! O espectáculo evoluiu muito – e penso que vai ainda evoluir. A noção de generosidade e de desafio é inerente ao mecenato.”

Suscitar novos talentos

A Fundação associa-se igualmente à atribuição do próximo Prémio Emile Hermès. “Trata-se de uma acção com um intuito claro: revelar novos designers.” A primeira edição escolheu três vencedores… para um terceiro prémio. Nenhum dos projectos, aos olhos do júri, mereceu o primeiro lugar. Este é um concurso a nível Europeu, com um júri oriundo de sete zonas geográficas. “A Casa Hermès contrata regularmente designers com quem trabalha internamente ou externamente. Por isso, para nós, este prémio é também uma forma de preparar o amanhã. Inserimo-nos num meio profissional onde somos também actores.” Com efeito, a Hermès colabora regularmente com 30 a 50 designers, ilustradores e gráficos em free-lance, e tem 15 pessoas em permanência na área criativa.

Podemos definir um tipo de artista que a Casa Hermès quer defender? “Trata-se de artistas que não se exprimam pela provocação; que falem do seu tempo, mas de forma serena. E que apreciem a questão da ‘escrita’, ou seja, que passem por uma linguagem que não seja apenas um espelho literal da realidade. Damos uma grande importância à utilização da cor. Por outro lado, apreciamos uma certa abstracção, um certo minimalismo, sem nunca chegar ao puramente conceptual. Dentro destes parâmetros há artistas muito diferentes!”

E conclui: “O futuro reside nisto – a federação de novos talentos e a partilha das ideias.”

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