Ninguém consegue viver bem de costas voltadas para o outro.

Ninguém consegue viver bem de costas voltadas para o outro.

Quando o marido lhe disse que queria a separação, Manuela F. achou que o seu mundo ia desabar. “Não estava preparada para a palavra divórcio. Foi um choque tão grande que andei quase um ano num limbo. Depois fartei-me de tanta tristeza e segui em frente. Hoje posso dizer que o divórcio foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Acordei para a vida, olhei para mim e para as minhas potencialidades”, diz.

Pode parecer estranho que uma experiência tão avassaladora possa ser classificada como um dos acontecimentos mais positivos de uma vida, mas a verdade é que é assim mesmo. Francesco Alberoni, no seu livro Sexo e Amor (Bertrand Editora), diz que é bastante frequente a mulher ter uma experiencia libertadora nestas circunstâncias. “É como se tivesse voltado a ser jovem, muda o estilo de vestir, cuida do seu corpo, quer atrair e sente-se segura e forte (…) Tudo isto é lógico, natural, positivo, porque lhe dá a força para recomeçar de maneira nova, mesmo sem ter logo outro amor que afaste o primeiro”, escreve. Se há sete anos, quando se divorciou, trabalhava numa pequena firma, Manuela é agora secretária de direcção numa multinacional. Tirou um diploma de espanhol e passou a ir ao ginásio “Mas não foi só isso que mudou. Aprendi a gostar de mim, a valorizar-me. Sinto-me melhor agora, com 46 anos, do que quando estava nos 30. Por dentro e por fora”, diz.

Não é invulgar esta procura de uma nova identidade após o divórcio, garante o psicólogo Luís Miguel Neto, docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação. “Há quem diga: Agora vou ser o meu eu verdadeiro, não tenho de agradar a ninguém excepto a mim, vou ter liberdade, descobrir-me e ser aquilo que quero Só que isto nem sempre é fácil”, explica. Porquê? “Porque a pessoa se vê a si mesma como fruto de uma relação que se desmorona”, responde no seu livro (com Ivete Azevedo) A Nossa Vida Emocional (Editorial Presença). Clara S. sabe que pode ser assim. “Fui jantar fora e dançar com as minhas amigas para festejar o divórcio. Pensava que no dia seguinte podia começar a pôr em prática os planos que tinha desde a altura em que tínhamos decidido, de comum acordo, separarmo-nos. Só que foi tudo menos fácil”, conta a bancária, de 37 anos, confessando: “Conhecemo-nos na faculdade, fomos logo viver juntos e só depois casámos.”

“É complicado quando a ruptura acontece depois de uma longa vida em comum. Então a euforia (…) pode dar lugar a uma sensação de aridez e vazio. Que não é saudade, nem desejo de voltar atrás, mas a consciência de uma perda. Apagar, esquecer uma parte tão grande da nossa vida põe em crise a nossa identidade”, escreve Alberoni. Carmen Alborch diz como ultrapassar a situação na obra Mulheres Sós: “Afaste certas ideias, como a de que a vida sem ele não tem sentido. As norte-americanas (…) dizem que se deve elaborar uma lista positiva das coisas que gostaríamos de fazer.” Clara pôs o método em acção, sem o conhecer. “Olhei para dentro de mim em busca de objectivos concretos. Percebi que queria voltar a estudar, fazer novos amigos, mudar de casa e arriscar uma viagem sozinha. Passados quase três anos, já concretizei alguns e tenho uma certeza: estou melhor assim… divorciada. Foi quase um renascimento!”

Cinco coisas a fazer sozinha

1. Evoluir. Invista no que sempre gostou, nomeadamente fazer um curso. Para além do conhecimento, é uma forma de conhecer pessoas novas.

2. Viajar. Quem disse que viajar sozinha é um disparate? É uma oportunidade para olhar o mundo da sua perspectiva, e já há programas para solteiros.

3. Exercício. Não tem desculpa para faltar ao ginásio. Faz bem à saúde e é bom para afastar o stress e pôr as ideias no lugar.

4. Relaxar. Um banho de imersão, uma massagem relaxante, uma sessão de cinema no sofá, ler um livro sem parar.

5. Descobrir. Em primeiro lugar, as suas potencialidades. O que gosta de fazer, o que ficou esquecido e o que pode desenvolver. Depois, o mundo à sua volta. Abra os olhos e aventure-se!

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