Fazer amor é uma porta de acesso para facetas de nós que desconhecemos.

Fazer amor é uma porta de acesso para facetas de nós que desconhecemos.

“O que te leva a pensar que eu quero fazer amor contigo?” A reacção é comum nos labirintos da sociedade global, onde é impossível não encontrar sexo ao virar da esquina. Na democracia sexual, em que a diversidade de condutas é regra – e politicamente correcta –, ter um fuck buddy (amigo que, ocasionalmente, assume a função de parceiro sexual) é considerado normal, sobretudo nos meios urbanos e cosmopolitas. Se fazer amor é uma actividade natural, que gera – além de filhos – prazer e até alívio da tensão, por que razão se converteu num valor absoluto, ao ponto de ser massificada? Por que há cada vez mais aquilo que muitos apelidam de “obsessão contemporânea”, que leva a que o mais pequeno gesto de aproximação seja interpretado como luz verde para “passagem ao acto”?

O sexo é a droga nos novos tempos. Trabalhos sobre o assunto referem que cresce o número de pessoas que, dia sim, dia não, precisa de mais de um contacto sexual (real ou através da Internet), apesar de terem um parceiro regular. Eles começam a aparecer nas consultas de psiquiatria e psicoterapia. O mal-estar de que falava Freud revela-se mais presente que nunca. As obsessões, as fobias e a depressão que nos afligem são camufladas por doses regulares dessa droga que o corpo aprende a pedir para se anestesiar e aplacar carências e medos.“Eu bem sei, tenho uma pessoa que me ama, mas não resisto a ir para os chats (canais de conversa em tempo real na Internet), teclar com os meus admiradores virtuais e ali fico horas, não sei passar sem aquilo”, admite Júlia (nome fictício), de 30 anos, vendedora de espaço publicitário. “Aqui, conheço pessoas que de outro modo não conheceria.” Miguel (nome fictício), de 28 anos e trabalhador-estudante, é um incondicional do programa Messenger. O tempo livre é pouco e as pausas laborais são integralmente ocupadas a falar com quem aparece, até que se troca o número de telemóvel, até que se marca o encontro “e depois logo se vê, dá jeito ter alguém para ir comigo jantar e algo mais se houver clima, porque não?”Por que é que “ter alguém” – no sentido de consumar ou possuir – é um desejo tão comum e premente, como se dele dependesse a sobrevivência emocional?

Para os psicanalistas, as condutas sexuais exacerbadas ou disfuncionais são apenas a face visível das pulsões agresssivas inconscientes e mal canalizadas (libido ao serviço da auto-gratificação compulsiva). Quando o sexo é tudo, algo vai mal dentro de nós. Não é por acaso que a necessidade de admiração excessiva, a manipulação dos outros, as fantasias de poder e amores ideais e o sentimento de auto-importância fazem parte do que os psiquiatras convencionaram chamar “perturbações narcísicas da personalidade”.No manual de diagnóstico e classificação das perturbações do foro psiquiátrico, o sentimento de vazio, os relacionamentos instáveis e a impulsividade (agida pelo sexo, nas compras ou na voracidade alimentar) marcam as “personalidades limite”; as interacções de sedução sexual constante, a necessidade de ser sempre o centro das atenções e o exacerbar de emoções são reacções típicas dos que padecem de “perturbações histriónicas” de personalidade. E o sexo compulsivo aparece, mais recentemente, como uma subcategoria dos transtornos obsessivo-compulsivos.

A maioria dos cientistas e terapeutas, seja qual for o seu modelo de formação, é unânime quanto ao facto de o maior órgão sexual ser o cérebro, a sala de comando central que governa as nossas escolhas. Em caso de crise – frustrações, problemas emocionais e até existenciais –, o sexo é um veículo de expressão do corpo. Saturado de hormonas desgovernadas, o corpo anseia por libertá-las. A energia acumulada passa as barreiras da mente e, na forma mais instintiva e animal, os comportamentos eróticos e sexuais trazem à tona conflitos e facetas pessoais que estavam adormecidas, mantidas na sombra.

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