
É uma separação inesperada e brutal.
“Numa tarde de Primavera, ao regressar do trabalho, encontrei na mesa-de-cabeceira do meu marido um envelope de uma agência de viagens. No interior, um bilhete para Nova Iorque. Pedi-lhe explicações. A resposta surgiu como um autêntico punhal: ‘Vou ter com a mulher com que faço tensões de viver.’ Fiquei ferida mortalmente, mil questões explodiram na minha cabeça. Quem era essa mulher? O que teria a mais que eu? E os filhos? Porquê pôr fim a uma relação feliz de 20 anos? Que teria feito de mal para merecer tal afronta? As justificações dele eram evasivas e resumiam-se em poucas palavras: ‘Já não posso mais! Estou farto de ti, da nossa vida. Não me imagino a envelhecer a teu lado.’”
Assim começou o drama de Ana, de 49 anos, professora, mãe de dois filhos. Apesar de já terem passado dois anos, cada vez que Ana toca na ferida, os olhos embaciam-se, a voz treme: “As duas semanas que antecederam a partida de Pedro para Nova Iorque foram um verdadeiro inferno. Não dormia, não comia, reduzira-me a uma fonte inesgotável de lágrimas, via o mundo negro e de pernas para o ar. Quando falávamos, era uma espiral infernal de incompreensões, de acusações, de raivas. Outras vezes, reinava um silêncio de morte.” No mesmo dia em que Pedro apanhou o avião, Ana tocou à porta de um psiquiatra. Estava decidida a sobreviver, a lutar – mesmo que se encharcasse em calmantes. Através do diálogo e da reflexão, foi analisando o mapa da inesperada e brutal separação, que o seu psiquiatra apelidara de ruptura.
Numa ruptura amorosa, não há pré-aviso. Secretamente e em silêncio, um dos cônjuges prepara o golpe e, de um dia para o outro, rompe com a relação. A força do silêncio durante o seu tempo de gestação e a brutalidade da sua revelação conferem-lhe a densidade particular próxima da crueldade. Quanto às dolorosas consequências, têm todos os ingredientes de uma tragédia. Tratando-se de uma separação com uma ordem estabelecida, confunde-se vulgarmente com uma simples mudança de vida. Mas ao contrário desta última, em que há adaptação e reflexão, a ruptura escapa à previsão e ao controlo – surpreende todos, inclusive aquele que toma a decisão.Conforme o psiquiatra de Ana lhe explicou, normalmente a ruptura tem raízes longínquas, muitas vezes na infância. A primeira ruptura é sem dúvida com a mãe. Seguir-se-ão outras: com o pai, com a célula familiar no fim da adolescência e, por numerosas razões próprias à evolução de cada um, com outras pessoas ou coisas. Ora Ana lembra-se muito bem da relação difícil entre Pedro e a mãe: “Cortou relações com ela duas vezes. Foram zangas abruptas e longas por motivos mínimos. Até que fui eu a vítima. Talvez sofra de imaturidade afectiva, precise de mostrar que é grande e independente. Sei lá! O certo é que repetiu o comportamento.”
Além disso, mergulhou na crise dos 40. Uma idade terrível, idêntica à adolescência. Achava-se velho, feio, gordo. Mostrava-se insatisfeito com o trabalho e os amigos. Mesmo os filhos, cada vez mais autónomos, não o motivavam. Sentia-se no meio da vida. Uma etapa de profunda transição, em que se procura um segundo fôlego para assegurar a parte seguinte. Depois, sofreu muito com a morte dos pais, ocorrida seis meses antes, num acidente de automóvel. Desapareceram as últimas barreiras entre ele e a morte. Havia que experimentar novas sensações, gozar outras aventuras, sentir-se vivo antes que os males da velhice o tolhessem.Como em qualquer separação, existe um período de “luto” que se desenrola em três grandes fases: a primeira é breve e corresponde à sensação de choque; segue-se um período de tristeza, de sofrimento e de apatia que se prolonga por muitos meses ou vários anos, e que nos dá a sensação de que nunca mais acabará; a última etapa consiste na aceitação do que perdemos e na adaptação aos novos dados da vida.














