
Está contente com o seu corpo?
Talvez não seja correcto dizer que nunca a beleza do corpo foi tão enaltecida como agora – os gregos já o faziam. Mas a verdade é que vivemos com este culto relativamente presente nas nossas vidas, à espera do que a medicina mais pode fazer para corrigir coisas que não gostamos em nós, para atrasar a idade, acabando com as rugas e a flacidez. Nunca se fez tanta cirurgia plástica por todo o mundo Por cá, há alguma preocupação com o assunto, mas no geral não vivemos obcecadas. Uma sondagem Máxima provou mesmo que estamos satisfeitas com o nosso corpo.
Como elas se vêem
Marta está acima dos 45 anos, é uma mulher independente, tem bom nível intelectual e cultural e sentido de humor. Fisicamente, tem excelente aparência e sabe que os outros a acham interessante. Vê-os nos olhos dos homens. Dir-se-ia que tem tudo para estar de bem consigo própria, no entanto não consegue conciliar-se com o seu corpo: “Começo a descobrir as marcas do tempo e isso deixa-me pouco à vontade.” Rute tem 31 anos, ar descontraído e curvas bem torneadas. É inteligente e directa. Foi mãe há dois anos e o seu corpo já ‘voltou ao lugar’. “Sou magra mas não o suficiente para me enquadrar nos cânones delgadinhos da beleza de hoje. E a verdade é que não sou especialmente bonita, não tenho um corpo perfeito, mas gosto dele. Sobretudo porque acho que reflecte o que sou, tem as marcas justas do tempo e das coisas que fiz”, observa.
Eu e os outrosEstou contente com o meu corpo, logo tenho uma boa auto-estima? Ou porque tenho uma boa auto-estima estou contente com o meu corpo? As palavras de Rute dizem tudo: “Sou atraente e ágil, sem ter grandes preocupações com isso. Faz parte de mim e essa é a razão principal para gostar dele [do corpo]: porque gosto muito de mim. Sim, tenho um ‘problema’ de excessiva auto-estima.”
A psicoterapeuta Ana Crespo concorda que, quando existe uma boa auto-estima, também se gosta mais do corpo porque a pessoa gosta mais dela própria. Mas recorda que a medida desse gostar também passa pelos outros, pois precisamos da confirmação do nosso valor. “O que o meu corpo representa, o que ele é capaz remete para o espelho, para o mundo. O nosso rosto é-nos devolvido pelo olhar dos outros, dá-nos o outro pelos afectos. E, depois, o nosso corpo é um campo de forças diferentes que nos vai constituindo, que nos vai formando e obrigando a entrar naquilo que é a normalidade. Ou seja, nós somos feitos por forças de poder que nos ditam o que é e não é belo, o que é e não é aceitável. O corpo é social.”
Equilibrar o nosso mundo interior com o mundo exterior, que dividimos com os outros e onde existem padrões de beleza definidos, não é fácil. Há estudos que demonstram claramente que é difícil mantermo-nos indiferentes aos conceitos de beleza, juventude e idade existentes na sociedade. De alguma forma, eles afectam a nossa auto-imagem e a nossa auto-estima. Seja como for, há factores de peso que influenciam o nosso olhar sobre nós, tornando-nos mais ou menos resistentes aos padrões de beleza existentes em determinado tempo histórico e social, garante Ana Crespo. “Estar ou não contente com o corpo tem a ver com a maneira como eu consigo, ou não, resistir ao padrão de poder dominante que me diz que o ideal de beleza é ser-se magro e jovem, por exemplo. Se eu tiver ganho mais flexibilidade em relação a mim, se eu estiver mais segura, eu resisto melhor. Pelo contrário, se estiver mais frágil, não vou aguentar sentir-me rejeitada”, explica, sublinhando o facto de as pessoas “poderem ser gostadas com condições”.
Quando se está bem ancorada, resiste-se melhor ao exterior, em crise é mais complicado. “Não está garantido que se fique sempre forte para encarar tudo. Mas há uma diferença entre isso e estar completamente à mercê do poder [que dita o que é ideal].” O medo de ver os sinais da passagem do tempo é compreensível no contexto da sociedade do século XXI, diz, mas é mais ou menos doloroso de acordo com a forma como a pessoa se sente no mundo.













