Ser estudante hoje

Ser estudante hoje

A vida das crianças e jovens de hoje não é fácil. Salvo raras excepções, desde muito cedo passam cerca de sete horas diárias na escola, com direito a uma hora de almoço e breves pausas. A grande maioria tem uma ‘jornada de trabalho’ prolongada, e é neste longo dia-a-dia escolar que reside o principal argumento dos que discordam da necessidade de se mandar trabalhos para casa, sobretudo para os mais pequenos. “Em princípio, este tempo deveria ser mais do que suficiente para que a generalidade das crianças aprendessem aquilo que têm a aprender. Os trabalhos de casa não são muito úteis em termos de consolidação das aprendizagens se estas estiverem bem estruturadas naquilo que diz respeito aos tempos lectivos”, diz o psicólogo Pedro Caldeira, defendendo que a criança deve ter tempo para si – para brincar e fazer o que bem entender quando está fora do ambiente escolar.

“O excesso de trabalhos para casa pode promover situações de ansiedade, quer para a criança quer para a família. E sabemos que as crianças têm uma carga lectiva muito elevada. Muitas vezes a família tem pouco tempo para estar com os filhos e, portanto, às vezes os TPCs em excesso colidem com as necessidades das famílias de relaxar, de se dedicar a outro tipo de actividades, bem como de as crianças organizarem os seus tempos, investirem em outros domínios mais recreativos”, diz Ana Isabel Pereira, professora doutorada em Educação Matemática. “A moderação é fundamental.”

No 2.º ciclo, as crianças têm diferentes disciplinas e um calendário ainda mais exigente, quer em termos de horário quer em relação às tarefas que são dadas em cada uma das disciplinas – o que inclui o trabalho para casa mas também o trabalho de grupo e o estudo para as avaliações. E “é necessário que as escolas tenham atenção a alguma articulação que deve ser feita entre os professores, para evitar os tais excessos. É importante também não dramatizar os TPCs em casa e na escola, nem dedicar metade das aulas à sua correcção. Ninguém ganha com isso”, declara Cecília Monteiro.

Por outro lado, há trabalhos e trabalhos de casa. Um simples enunciado para ser interpretado pelo aluno com o apoio da família, jogos e experiências a serem feitos em casa ou mesmo adivinhas podem ser igualmente importantes para o desenvolvimento de conceitos. Coisas simples que podem ser encaradas como um desafio em que pais e filhos colaboram. Sem falar nas coisas que nos rodeiam que podem ser utilizadas como elementos de aprendizagem. “Fazer jogos com as crianças pode ser mais importante do que um trabalho de casa”, comenta o psicólogo Pedro Caldeira.

“E há aprendizagens que não são feitas na escola e que não passam apenas pelos TPCs tradicionais. É importante orientar as famílias no sentido de procurarem estimular a curiosidade das crianças, falarem sobre o que aprenderam na escola, fazerem a articulação entre estes saberes e os saberes do quotidiano, que poderá ter uma ligação mais directa entre aquilo que aprenderam na escola e o seu dia-a-dia, assim como a estimulação do interesse pela leitura”, remata Ana Isabel Pereira.

Como estudar?

Aprender a estudar desde cedo é fundamental, defende o psicólogo educacional Pedro Caldeira, dando algumas sugestões de como estudar de forma produtiva.

• Começa-se por uma leitura básica, sem preocupações de memorizar ou aprender conceitos

• Segue-se uma leitura mais atenta, para compreender o discurso e os termos utilizados

• A terceira fase implica uma leitura sublinhando o que se considera mais importante

• Faz-se um segundo sublinhado, que muitas vezes não coincide com o primeiro. Indicação clara de que está a diferenciar entre o que é de facto central e o que é acessório

• Seguem-se resumos e resumos ainda mais compactos, com gráficos, chaves e chavetas

• Tudo isso faz com que se vá revendo conceitos e assimilando-os

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