O erotismo vive do que alimenta o prazer.

O erotismo vive do que alimenta o prazer.

O uso de roupas e acessórios femininos para a realização de diversas fantasias sexuais é quase desconcertante. Este mundo alimenta-se da imaginação de todos: dos que inventam os trajes, aos que os dispõem por catálogos, passando pelos próprios consumidores que vestem as roupa. Catalogadas com todos os devidos e reduzidos adereços, desfilam a enfermeira, a odalisca, a escrava do prazer, a pantera sexy, a guerreira tribal, a mulher polícia ou militar, a viúva, a bombeira em vinil e a ingénua capuchinho vermelho. Toda uma galeria de personagens que despertam a atenção e a libido dos adultos, já que o Carnaval que se propõe é para ser vivido a dois e entre os lençóis, na privacidade do lar. Apesar de não serem tão expressivas ou numerosas, as fantasias para uso masculino também existem: o fato-macaco azul do homem da garagem, o padre, o super-herói, o escocês e a sua saia, que segundo a tradição dispensa os shorts, são alguns exemplos. A questão é: será normal?

Para a psiquiatra Luísa Gonçalves, o uso de peças de roupa de forma a compor uma fantasia sexual passa pelo proibido: “Tudo o que é interdito – no sentido da hospedeira ou da colegial que é menor, da Lolita – aumenta a libido. Há um desejo que tem de ser cumprido. Se houver uma pessoa que vista uma vestimenta de alguém interdito pode suscitar aumento da libido. Trata-se de um interdito associado a uma imagem não vivenciada, portanto não passou ao acto, só imaginou, não pôde concretizar, e mais tarde pode vivê-la em fantasia. É o deslocar de antigos sonhos eróticos comuns aos homens. São coisas recalcadas, que se cruzaram na vida de cada homem e às quais ele não teve acesso – a adolescente, a criada, a bombeira. Na autoridade não se toca, é uma fonte de respeito, pode desejar-se mas há que conter. Ora, transferindo a farda para o objecto de desejo, isso amplia a libido.”Poderemos então brincar aos interditos sem que isso seja considerado patológico? “Dentro do campo sexual, ter fantasias – até as banais do romântico que não passam por acessórios mas pelo cenário belo ou uma ilha deserta, por exemplo – é considerado aceitável e cultivado por nós ao longo do tempo. As fantasias com a roupa são normais enquanto jogo de brincadeira, uma experiência nova de formas de encontrar prazer ou de se relacionar. O jogo pelo jogo é perfeitamente inócuo. Passam a ser patológicas quando o acto sexual só é conseguido com a existência de um objecto extra. Se o acto sexual precisa de qualquer objecto – seja ele o salto alto preto, uma rosa na boca ou uma chibata –, para todos os efeitos, isso já entra no campo da patologia. Há uma transferência do desejo do outro para o objecto, ou seja, o outro é que passa a ser complemento”, explica a psiquiatra.

As mulheres fantasiam-se mais do que os homens. Quem veste uma fantasia está a provocar,em primeiro lugar, o olhar do outro. Mas para qual dos dois sexos será mais importante este estímulo visual? Nos homens, o facto de verem, mesmo sem tocarem, é o suficiente para que o gatilho do desejo seja disparado. Mas será ele mais receptivo a excitar-se com este tipo de fantasias ou a mulher também tem prazer em fantasiar-se para o parceiro? “A mulher, ao longo dos tempos, foi muito o objecto de prazer do homem, embora existisse uma disjunção: a mulher bem comportada em casa e a amante com a qual se podia ter prazer. Havia uma cisão imposta pelo respeito. O que é que acontece? O homem está mais ligado ao fabrico deste tipo de objecto. Adora ver uma mulher colada em vinil. As mulheres são mais inibidas, não de concretizar a fantasia do homem, mas as suas próprias fantasias. Normalmente, estão relacionadas com o herói romântico. O cozinheiro também é um grande viagra para a mulher, mas a fantasia número um são os padres, uma vez que se trata do inacessível. O padre ou os seus superiores hierárquicos, quanto mais para cima melhor. O poder é um grande afrodisíaco. Os lugares de poder são muito libidinosos, estimulam muito o impulso sexual da mulher.”